Um jeito de fugir


Sete escovadelas no cabelo. Um olhar profundo sobre seu reflexo. E depois um sorriso triste em resposta ao pensamento. Estava treinando seu rosto feliz de amanhã, e com absoluta certeza ela iria treinar até mais tarde, porque como ela via, ainda não convencia ninguém.

Sob a luz de vela que iluminava seu rosto, Luna pensou em como seria a reação da sua mãe se ela não se comportasse bem amanhã. Era contra sua vontade, mas na manhã seguinte ela seria apresentada a um rapaz chamado Petrus, filho herdeiro de um fazendeiro que morava nos bosque distante do norte. Nunca o vira antes, mas sua mão fora prometida a ele havia algum tempo. E na manhã seguinte, seria marcado o dia do casamento.

Pensar nisso quase lhe arrancou uma lágrima, mais ela as obrigou a voltar pelo mesmo caminho que fizeram. Lágrimas era a única coisa que de nada adiantava. Se fosse por isso não haveria tanta dor no mundo. Então ela não choraria, em nenhum momento.

Acordou de manhã, quando os preparativos para a festa já estavam quase prontos. Tomou um susto quando sua mãe bateu na porta. Ela abriu, olhou a mãe com um daqueles chapéus grandes na cabeça e virou-se, sem nenhuma palavra.

- Ainda se encontra desse jeito menina? Rápido! Vista-se com sua melhor roupa. – Disse dona Severina. Depois puxou a porta atrás de si e foi embora. Um segundo depois, pela mesma porta, entrou Maria, a criada da família havia anos.

- Vim ajuda-la a se vestir minha menina. Já sabe qual roupa irá usar? – Maria sorrio, mas não obteve nenhuma resposta pra esse sorriso. Luna não chorava, mas por traz daquele disfarce Maria pode ver sua dor. Era de corta o coração. A pobre menina que criara desde bebe dali a alguns dias iria embora. Mas ainda era apenas uma menina, só tinha 17 anos de pouca experiência. Apenas isso. E se perguntou como poderia aquela menina se casar com um rapaz dez anos mais velho do que ela? Era difícil pensar nisso, por que nada dependia dela.

Horas depois, um silencio emanou dentro da sala quando Luna desceu as escadas. Todos a olhavam, sorrindo, comentando, cochichando...

E ali estava ela, como um pacote encomendado a alguém, com seus sonhos despedaçados e sorrisos falsos. O que haviam feito com aquela menina de coração bom? Um pacote de carne, razoavelmente bonito e atraente, pra ser exibido a um bom comprador... No que seria transformada aquela ferida doida em seu peito? Numa saída suicida, numa fuga, ou numa aceitação em que sua índole jamais seria mesma? Luna de nada sabia. Só via seu destino se quebrar em mil pedaços agora.

Sua felicidade de mentirinha começaria ali, quando Petrus, o rapaz bem vestido que estava no pé da escada tocasse e beijasse sua mão direita. Dalí em diante seria assim. Nunca mais sonhos, nunca mais vida, nunca mais felicidades...

...Mas o que ninguém sabia, era que Luna, esperta como era, já havia pensado em tudo isso havia muito tempo. Na semana passada ouviu sua mãe comentando na cozinha. E sem pensar duas vezes, comprou uma passagem de trem que sairia na madrugada seguinte. E a exatas 04h30min da madrugada, ela jogava sua mala pela janela e descia silenciosamente as escadas da sala vazia. Porque aquela vida era dela, e quem viveria era ela. Viveria não dessa maneira certa, como todo mundo achava, como toda menina da sua idade viveria. Luna era diferente, viveria da sua maneira.

7 Comentários

  1. Muito obrigada pelas suas palavras.

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  2. São tantos sonhos, tantos projetos, que acho que eu fugiria sim. O sonho maior de viver a MINHA vida ficaria acima de todos os outros ;)
    Adorei o conto. Imaginei-me sendo a Luna *-* haha
    Beijos ;**

    http://fugaadarealidade.blogspot.com/

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  3. Hum bem legal seu blog..
    adorei a musica de fundo também!

    obrigada pela vistinha lá..
    beijo

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  4. Que bonito aqui ^^
    Obrigada pela visita ao Algodão Doce, sinta-se sempre bem vindo. ;*

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