- Sobre dias frios e corujas...


Sexta-feira amanheceu chuvosa por aqui. E mesmo com a cidade debaixo de uma penumbra escura, eu não perdi a vontade de ir à livraria de Rochedo Norte no centro da cidade. Já faz alguns meses que não ponho o pé lá, e mesmo assim meus livros novos já foram relidos umas três vezes.

Quando alcancei o teto da estação, à chuva já soprava forte lá fora. Minha calça estava encharcada até os joelhos. Mas o trem, ainda me esperava parado na estação.

Entrei com meu guarda-chuva pingando no segundo vagão. Havia poucas pessoas, em comparação com outros dias, quase não havia ninguém.

Sentei-me próximo a uma menina de cabelos negros. Vestida de uma forma estranha, ela segurava um caderno sobre os joelhos, tão fixa na sua escrita que eu nem arrisquei dar bom dia.

A chuva soprava violentamente lá fora enquanto o trem escorregava lentamente sobre os trilhos. Na verdade a vegetação se esgueirava debaixo da chuva forte do outro lado da janela. E a viajem seguia calmamente, até que o trem começou a parar, e uma discussão interrompeu o silencio. As poucas pessoas que estavam no trem se moveram assustadas para ver o que era, e eu também fui ver o que estava acontecendo.

Na chuva, três homens de preto tentavam invadir o trem pelas janelas, e as pessoas do primeiro vagão gritavam desesperadas.

Fechei minha janela com um só empurrão e quando fui avisar a menina estranha que sentava do outro lado pra que ela fechasse sua janela também, vir seu assento vazio, como se ela nunca tivesse estado lá. Mas no chão, quase em baixo da sua poltrona, seu diário estava caído.

Corri até o corredor pra ver se ainda se encontrava por lá, mais depois de horas, até mesmo depois que o trem recomeçou sua viajem ela não mais apareceu.

Meus dedos tremeram ao abrir o diário na primeira página. Era um daqueles diários negro envelhecido. Sobre sua folha de rosto estava escrita uma data. “13 de Setembro de 1987”. E mais na frente, duas penas de corujas serviam de marcador para uma página. Com letras pequenas o texto começava assim:

“Ainda bem que as pessoas me veem da maneira que não sou. Caso contrario, eu jamais estaria aqui neste trem. Tentando com toda força não ser percebida...

... Porque o que elas veem as suas frentes é uma menina frágil, com uma maquiagem forte ao redor dos olhos e uma boca escura. O que elas realmente não sabem é que não importa a quantidade de água e sabão que eu use, essa sombra preta que cerca meus olhos nunca sai, e que essa cor escura em meus lábios não é como um batom preto que com apenas um beijo borra tudo. Mas as coisas só pioram. A cada dia.

Sim, como eu gostaria de não me esconder sempre. Mas quando se é uma bruxa adolescente é muito difícil controlar seus sentimentos, ainda mais quando eles são extremamente provocados. Mais talvez, se eles soubessem que eu não sou mal, e que também não tenho culpa de ser uma descontente de bruxos, eles talvez me deixassem em paz.
Não que eu me sinta triste ou me lamente por isso. Sou acostumada. Ainda me lembro de quando as freiras do abrigo pra crianças órfãs me mandaram embora. Eu só tinha dose anos, e sair por que era considerada como estranha. Ainda me lembro dos seus olhares sobre mim, e desde então ninguém nunca me olhou diferente.

E esse é mais um dos motivos pra eu esta fugindo, muitas pessoas já sabem o quem eu sou, principalmente aqueles homens grandes que quase me... Enfim, decidir que aquela velha casa da árvore não serve mais pra mim. Além de ser velha, fica dentro de uma propriedade privada, em que os donos, talvez já estejam mortos há alguns anos.

Tomara que aqueles homens que me perseguem não tenham mais um truque pra adivinhar o que eu ando pensando, porque se me acharem, eu também irei morrer. Como Tommy e Grinna, as únicas pessoas que sabiam o que eu era. Ainda me lembro de quando morreram, e só eu tive a chance de conseguir fugir pra cá e me esconder aqui.

Ah anos que eu estou escondida nesta cidade, e agora me encontro fugindo, de novo. Porque aqui já não é mais o lugar certo. Eu poderia sim, me esconder por aqui mesmo, ou procurar abrigo em alguma casa, mais se assim o fizesse, já havia morrido, ainda mais cedo. Então, é melhor viver sozinha mesmo, quando se é alguém como eu.

A verdade em tudo isso é que estou com medo. Com tanto medo que estou indo pra uma cidade bem distante de tudo. Ilha-velha se encontra rodeada de águas negras, só umas duas famílias se arriscam a viver por lá. Então, me pareceu o lugar certo. Mas, mais cedo ou mais tarde eles me acharam. Eu sei disso porque previ. Mas não quero morrer tão cedo. Não quero morrer como Tommy e Grinna. Não quero morrer só por ser algo que eu não tenho culpa. Está em mim, e não foi por escolha minha. Não quero pensar nisso. Às vezes acho que...”.

As palavras não haviam tido um fim. Ela certamente escreveria mais, se aqueles homens de preto não tivessem adivinhado em qual trem ela estaria e o tivessem parado no meio da viagem. E me pergunto com toda força: Ela teria tido tempo de sair do trem. Eles tinham a capturado?

(...) Uma semana depois, o lugar onde eu havia guardado aquele diário estava vazio. E sobre o lugar onde antes se encontrava agora havia apenas um pedaço de folha rasgada com essas palavras escritas: “Obrigado por guarda-lo tão bem moço”.

4 Comentários

  1. Inspiração para projeto boínquês.

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  2. Caramba, que texto massa! *.*
    Vi seu comentário em um post meu no blog PSUV e resolvi dar uma olhada no seu. Muito me agradou >.<
    Visita-me depois?
    Abraço.

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  3. Escrever é um talento e você, com certeza, foi um dos agraciados. Muito bom!

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  4. Tão perfeito, rick. Me acalmo lendo seu blog.ah, e eu gostei da corujinha no layount

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