Subúrbios...

Pedro foi criado nos subúrbios do Rio. Cresceu abandonado pelo pai num lugar onde tinha como vizinhos as drogas e a violência. Durante muito tempo viu sua mãe chorando no canto, resultado do abandono e do desprezo. E assim ele cresceu, sendo a prova viva de que este mundo, às vezes, pode ser bastante injusto. Os vários e vários caminhos fáceis da vida emergiam em meio a seu caminho difícil. O certo, por varias vezes, lhe parecia mais dolorido, mas pensava que seria muito melhor, no futuro, quando essa tempestade, por fim, passasse. Pedro era um menino simples, brincalhão, e filho único, era a coisa mais importante na vida de sua mãe, o resultado perfeito de um casamento falido e infeliz. Cresceu e brincou a infância toda com seus colegas de escola, e por varias vezes viu esses mesmos colegas escolherem o caminho mais fácil e acabarem suas próprias vidas como alguém que consciente, decide morrer. Passou no vestibular na terceira tentativa, porque o que aprendeu nas escolas do seu bairro não lhe ajudou muito. E agora, mais do que nunca, dona Ana estava feliz. Porque? Pela primeira vez na sua família, alguém tinha decidido ir mais longe. Pedro sonhava alto, queria pelo menos tentar mudar aquele lugar onde lei nenhuma existia e os pobres eram esquecidos pelo governo, como ratos que merecem somente as sobras. E olha que Pedro nasceu e se criou no berço da marginalidade, assim conhecida pela elite que ocupa a outra parte desta cidade dividia em duas, onde os hipócritas ergueram seus arranhas céus e se separarem dentro dos seus próprios mundos, onde o consumismo sempre leva à maioria a falência. A verdade é que Pedro sonhava alto por demais e não ligava em manter os pés no chão, ele queria mesmo era fazer pelo menos isso, sonhar, sonhar e sonhar, na esperança de um dia realizar pelo menos um bocado desses sonhos. E mostrar pra ele mesmo que se a vida te oferece limões, é seu dever correr atrás do açúcar e fazer sua própria limonada. Que quando já se nasce numa vida assim, é preciso ir além, e de certa forma provar pra si mesmo que no futuro, todo esforço é recompensado... Hoje, era uma sexta feira qualquer do mês de agosto e Pedro tinha negado o convite dos amigos para sair depois da faculdade pra comemorar a entrada de mais um novo período. Voltava pra casa à noite, escutando musica no fone de ouvido, calado e calmo. Desceu do ônibus e seguiu, faltavam mais duas quadras pra chegar à entrada do morro, então, precisava andar mais rápido agora, não sabia o que poderia surgir daquelas esquinas escuras por onde passava. E Pedro não sabia mesmo... Numa questão de segundos, Pedro levou uma pancada na cabeça pelas costas. Sentiu o sangue escorrer e precisou de três segundos pra virar e ver quem era. Dois policias lhe apontavam suas armas. Mandaram-no passar a grana, alegando pagamento de propina que iria quitar uma divida que já estava vencida. Ele negou uma, duas, três vezes até levar um soco e cair no chão. Disse umas mil vezes que estavam confundindo ele. E depois de ver todos os seus livros espalhados no chão, ouviu algumas balas serem disparadas e em milésimos de segundos, atingirem seu corpo... Agora estava sangrando e gritando desesperadamente pro vazio, e sem ninguém por perto, ele se perdeu profundamente na inconsciência... E quem diria, Pedro pensava que tinha mais chance de morrer onde morava. E agora, onde foram parar os seus sonhos? Quem iria segurar as esperanças da sua mãe, quando ela soubesse que o muro em que se segurava, estava desmoronado? Quando se morre jovem, parece que as coisas ficaram pela metade, separadas entre o “lá” e cá... Acontece que, mais uma vida tinha sido interrompida, em milhões. O sistema, a hipocrisia cuspida, a falta de lei, a falta de tudo, tinha mais uma vez acabado com o tudo de um rapaz que mal ficaria um dia estampado nas capas de alguns jornais locais. Depois disso, como todos os outros, seria esquecido, dentro de mais um inquérito policial.
É perceptível, a violência no Brasil cresce a cada dia...

16 Comentários

  1. O pior é saber que existem muitos Pedros por aí, e se sentir impotente diante da situação.

    A gente se precave tanto, mas sempre acaba sendo atingido pelo lugar que sempre achou ser o mais seguro.

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  2. Realmente, uma situação que se repete todos os dias e ainda, por incrível que pareça, deixa muitas bocas caladas por aí.
    Gostei do modo como você aplica situações que precisam ser discutidas em bons contos. Voltarei sempre.

    Abraços, Vitória.

    http://fragmentodesolercia.blogspot.com

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  3. Olá amei seu blog ja estou seguindo.
    Beijinhoo's.

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  4. Texto bonito e triste, muito triste, porque infelizmente é essa a cruel realidade de muitos Pedros por aí, como disse a Renata mais acima. Sonho com o dia em que a gente vai poder viver em paz.

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  5. O Brasil está cheio de Pedros por aí.
    Infelizmente a violência é um mal difícil de acabar.

    Beijos.

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  6. Gostei muito do formato e originalidade do seu blog.

    Abração, sucesso!

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  7. Gostei muito! Muitos pedros no Brasil existem! Um abraço!!

    Nícolas/ Dicas Blogspot

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  8. Talvez o segredo seja mesmo correr atrás... Mas talvez o segredo ainda esteja guardado!!

    Agradável aqui também!!!

    Bom feriado e ótimo fim de semana!

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  9. Primeiro, o nome do blog é muito convidativo. Principalmente para os que, como eu, são fascinados por chuva. O layout é agradabilíssimo! E essa nostalgia que perpassa cada palavra é encantadora.

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  10. Fico muito feliz com a sua visita. Como já comentei este post, estou passando para lhe desejar um lindo fim de semana, muito abençoado por DEUS.

    Beijos no coração.

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  11. Ah Rick, como sou apaixonada por esses fins trágicos! ficou perfeito..
    Bom feriado, e espero que a mãe do garoto se recupere.
    http://maybe-i-smiled.blogspot.com.br/

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  12. Amigo Rick,
    O conto é trágico, mas, apesar de ser uma ficção, é uma parábola real.
    Como sempre, muito bem escrito e narrado.
    Pedro, apesar da morte precoce, foi justo, honrado, firme em seus ideais, e, sobretudo, uma bom exemplo a ser seguido e de vida. Neste ambiente hostil, seja qual fosse o lado, certamente não sobreviveria por muito tempo.
    No que dependeu de seus esforços, progrediu.

    Está de parabéns pela virtuosidade, amigo.

    Abraços.

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  13. Sim... A violência cresce graças às leis medíocres e impunidade legislativa... Um sistema mais que humano, falho, portanto. E muitos se descompatibilizam com esse mundo sem nem mesmo virarem notícia de jornal... Morrem em vão, sucumbidos no desdém das leis e na hipocrisia política.

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  14. Triste, mas verdadeiro. Existem muitos e muitos Pedros por aí. E temos que continuar a caminhar por aí, sem saber se amanhã o sol vai brilhar em nossos olhos novamente.
    Beijinhos.

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  15. Muito bom seu texto!
    Você escreve muito bem.

    Beijoos

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  16. Rick,muito triste e realista seu conto!Uma história que,infelizmente, está se tornando cada dia mais comum em nosso país!bjs e boa semana,

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