Então...

– Tu conhece Barreirinhas? – Ele me encarou.
– Mais ou menos. Por que?
– Porque ficar aqui assim contigo me lembra o dia em que eu fiquei na beirada de uma lagoa lá em Barreirinhas, comendo peixe frito com a família de Juliana, uma menina que eu conheci. O céu estava quase igual, mais bonito, é claro. Cheguei semana passada de lá e cara, incrível aquele lugar... – Ele disse.



– Já faz tempo que eu fui. Mas não conheci os lençóis. Só fui fazer uma pesquisa de campo quando eu fazia curso.
– Cara, olha que eu já fui em muitos lugares, mas eu nunca tinha visto uma coisa tão bonita.
– O céu deve ser mais bonito lá...
– Sério. Muito mais. É muito estranho ver várias lagoas enormes de água cristalina no meio de tanta areia. A casa da July fica em Santo Amaro, e ai ela me levou pra conhecer vários lugares no mesmo dia e no fim da tarde, a gente foi pra um lugar chamado Farol... – Ele sorriu. – Que é exatamente um Farol mesmo, mas não só. Ai nós subimos e de lá deu pra olhar a imensidão que era aquele lugar. Eu fiquei sem fôlego cara. É muito bonito ver que depois de tanta areia tinha um mar calmo e esquisito e deserto e que eu tinha enfrentado tudo aquilo até chegar ali. Eu estava tão cansado que sentei na beira daquela imensidão enquanto o sol, lentamente, ia embora ao oeste de mim. De repente, sem mais nem menos, me deu vontade de chorar sabe. – Ele me olhou cheio de brilho nos olhos e falou sorrindo. – E eu chorei muito. Porque eu nem sabia o que agradecer, se a sorte de estar vivo pra viver tudo aquilo ou o privilégio de ter feito esta viagem só pelo fato de chegar ali e sentir a calmaria que a natureza por si só emana. Eu me senti conectado com mundo. Eu me sentir pequeno, mas não esquecido ou insignificante. Eu me sentir vivo sabe. Eu não sou feliz. Mas naquele instante, nada mas importava. A empresa aqui, a minha mãe alcoólatra, a falta de grana, o desapontamento dos meus chefes pelo negócio todo não ter dado certo, meu irmão que tá em Belém. Enfim, eu fechei os olhos, escutei o mar e esqueci... – Enquanto ele falava, eu fiquei pensado no momento que ele descrevia. Ele lembrou de tudo com tanta emoção e sentimento que dava pra ver no seu rosto ainda queimado pelo sol. E eu não vou te mentir, agora que ele estava olhando para as luzes do outro lado da cidade, ele parecia muito mais bonito do que era. – Já sentiu isso?
– Acabei de sentir. – E sorrir pra ele e ele sorriu de volta. – Quando puder, quero ir comer peixe frito na casa dessa tal de Juliana.
– Ela é uma ótima pessoa.
– Tu também parece ser cara. Eu mal te conheço e tal. Mas eu sinto isso. E pode ser que eu esteja errado e que você só esteja afim de me surpreender, mas eu não ligo não.
Ele colocou a mão sobre a minha, que estava apoiada no banco e eu acabei olhando fundo nos olhos dele. E se é mesmo verdade que os olhos não mentem, eu pude ver naquele olhar exatamente o que ele queria. Ele lambeu os lábios ressecados e eu fugir.
– Já são duas. Preciso ir... – Tirei a mão de baixo e olhei o relógio na tela do celular.
Quando eu ia me levantando, ele se levantou atrás de mim e me puxou pelo braço. Eu meio que me encostei na parede perto da porta do bar e ele ficou me encarando como que esperando alguma reação minha. Próximo o suficiente. Mas eu só olhava para aquela boca vermelha e sentia o cheiro do perfume misturado com álcool e cigarros fumados há algum tempo. Eu o olhei nos olhos e no instante em que ele quis ir em frente, eu virei o rosto, ele sorriu e me abraçou forte. O cheiro dele ficou intenso. Eu fechei os olhos e sentir vontade de ficar assim até a noite acabar.
– Qual é mesmo o teu nome cara? – Sussurrei no ouvido dele.
– Cassiano.
– Cassiano, eu preciso ir. Acordo muito cedo amanhã.
– Dorme lá em casa. Eu te deixo no serviço amanhã.
– Eu não costumo dormir com gente que eu acabei de conhecer.
– Eu também não. Mas hoje eu quero.
– Eu também.
– Então vamos.
– Hoje não.
– Eu sei que você quer ir.
– Tu sabe que eu quero ir. Mas eu sou difícil.
– Eu te conquisto lá em casa.
– Eu não costumo dormir fora.
– Acostume-se.

10 Comentários

  1. Olá Ricardo.
    Que post emocionante, envolvente. Me fez lembrar de alguns pequenos momentos, que ás vezes muito simples marcam tanto por serem intensos. Me lembrei também de alguns amigos e da falta de coisas simples fazem.

    Lindo o layout!
    Abraço.

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  2. "Eu te conquisto lá em casa!" foi uma boa alternativa... Quem sabe no próximo encontro, o difícil se torna um pouco mais fácil?! Quem sabe não se tornou, não é mesmo?! Bom diálogo, querido! Forte abraço!!
    ;o)

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  3. Gostei muito do texto e da forma que brinca com as palavras,
    Texto envolvente e lindo.

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  4. Que maravilha de texto Ricardo... queria que ele não acabasse, queria seguir lendo e seguir me surpreendendo com esses dois...

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    1. Hehe. Quem sabe eu não faça uma continuação depois...

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  5. Me fizeste lembrar de muitas noites sem muito sentido em bares por ai, onde eu dificilmente encontrava alguém que eu mal conhecia mas eu podia sentí-lo... e depois eu me pergunto será que foi efeito do álcool?
    Adorei o final, o mistério que faz com que a imaginação flua...
    beijos.

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