Querido Carma

Eu estava entre os lenções do Pedro quando tua mensagem chegou. Saudades. Eu meio que fiquei admirado. Pedro percebeu minha reação e perguntou quem era, eu disse que era bobagem e deixei o celular na mesinha do lado. Soletrei a palavra sau-da-des três vezes na mente pra ter certeza se ainda fazia algum sentido pra mim e constatei que não. Engraçado não é? Eu te superei. Eu mergulhei fundo nesse abandono e por mais que eu quisesse, não morri, mas acabei encontrado no meio de todo aquele caos, um porto seguro. E é verdade, eu não estou inventado isso pra esfregar na sua cara que eu dei a volta por cima, mas pra dizer que precisamos falar sobre o Pedro. Ele é uma cara bacana. Gosta de mim. A gente se gosta. Já fazia um bom tempo que nem lembrava de ti. São três e vinte e seis da madrugada, o Pedro dormiu, eu estou relendo a tua mensagem agora. Saudades? Eu não vou responder. Eu não preciso responder. Eu não. Eu respondo: eu já não me importo. Tu responde: a gente precisa conversar. Eu penso: poxa Lucas, porque tu faz isso comigo cara. A gente não precisa conversar mais nada. A gente já conversou sobre tudo. Eu não pretendo voltar a viver aquele amor que não é saudável. Eu não... São quatro e cinquenta e cinco, quase cinco da manhã e eu não sei mais atravessar essa ponte que me separa do sono. A palavra saudades estar me fazendo virar de um lado pro outro na cama. Eu estou prestando atenção na minha respiração, o Pedro dorme profundamente aqui do meu lado, eu passo a mão entre seus cabelos ruivos e penso comigo mesmo que ele não merece ser mais um tapa buracos nesta minha vida infeliz. Sinto dizer que não tem espaço pra ti ou não deveria ter mais... Mas, nesta altura do campeonato eu releio a tua mensagem, e olhar para ele aqui do meu lado me faz sentir uma culpa tão grande que é maior que o peso de todos os oceanos juntos. A minha consciente pesa. Eu sinto vontade de levantar pra fumar, encher os pulmões, me jogar da janela desse apartamento pra nunca voltar a pensar em ti. Se tua intenção era me fazer refletir sobre o que eu sinto por ele, tu foi bem sucedido. Porque infelizmente, eu não sei mais me apaixonar por outra pessoa desde o dia em que por descuido, eu te conheci. Entenda que eu sou profundamente infeliz por sua causa cara. É uma pena. É um desastre. Esse amor – que mais parece um carma – que eu sinto por ti, não pretende libertar esse meu coração amaldiçoado. Eu preciso que você me deixe em paz. Porque tu sempre aparece quando eu já estou no último degrau do teu esquecimento. Porque tu sempre aparece quando eu já estou me interessando verdadeiramente por outra pessoa. Segue o teu rumo. Me deixa te superar. Não é porque eu te amo que tu pode me procurar assim que não achar ninguém melhor que eu neste mundo. O sol apareceu. Não pode ser mais uma recaída. Eu não posso passar a vida toda voltando para as drogas. Me deixa ir. Me deixa tentar. Eu respondo: pode ser hoje.

10 Comentários

  1. querido ricardo,
    qualquer pode visitar meu blog há três anos e constatará que tive um Lucas. um Lucas que me tirava a cabeça e que me pegava pelo pé esquerdo toda vez que eu finalmente criava forças pra sair. um lucas que me dava um amor machucado e dolorido, mas que me fazia ter orgulho de ter (só eu e ele entendemos esse relacionamento, eu adorava dizer). Mas os Lucas nunca ficam, eles vão embora, e quando ficam supervalorizamos as migalhas como se fossem banquetes.
    Tudo isso pra te dizer que são raros os Pedros do mundo. Que oferecem abrigo quando lá fora tem tempestade, que são segurança num mundo tão desconfiado. Por mais duro que seja, se agarre a esse Pedro. O mundo já tem Lucas demais pra nos fazer sofrer!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Isso é muito verdade.
      É uma especie de amor que não faz bem, que não é saudável, e mesmo assim as pessoas adoram continuar vivendo dele. Muito embora tenha um amor seguro e tranquilo bem do lado, sofrer parece ser um caminho irresistível. As pessoas parecem não se importar com a reciprocidade.
      Talvez seja preciso passar por certas coisas para aprender a finalmente viver daquilo que soma e não daquilo que vive sumindo e só aparece quando quer.

      Obrigado, beijos.

      Excluir
  2. Por um momento eu pensei que fosse uma daquelas narrativas de superação. Você não me merece, arrumei alguém melhor e fim. Mas as coisas nunca são simples assim, né? Sempre tem aquele resto de amor que fica, porque a gente tem mania de ser masoquista demais. As constantes crises, os choros, as recaídas... parece mais emocionante viver numa novela mexicana, com altos e baixos que nos roubam o fôlego, do que ficar na segurança de um passeio de barco numa lagoa rasa e não tempestuosa.


    Beijo Rick.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Sim.
      Acho que tem a ver também com maturidade. Talvez, em um determinado momento, as pessoas aprendam que mais importante mesmo é aquele amor que faz bem. Aquele sentimento com cara de porto seguro.

      Excluir
  3. Depois de tempos, apareci. Rick, tem coisas tão difíceis de superar, quando o moço estava quase achando um porto seguro novamente, é bagunçado. Pode não ser amor pelo cara da mensagem, mas sim lembranças que perturbam e se dizem sinceras, mas na verdade são apenas passado, um passado ruim que não pode ser vivido novamente,pois todos que sofreram por isso sabem como termina. O ruivo não precisa ser apenas um tapa buraco, mas sim um recomeço, um deixar o passado em seu devido lugar.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Um dia a gente aprende né. Não dá pra viver o tempo todo andando em círculos. Uma hora, todo mundo cresce. Aprende a dar valor aquilo que faz bem e a não dar aquilo que não.

      Excluir
  4. Um conto que não conta tudo. Quase. Pedro dorme, mas o narradar e Lucas parecem estar bem acordados. Tem amor que tira o sono, tem amor que embala. E tem amor que não dorme!
    Bom fim de semana por aí, querido!
    Beijos!

    ResponderExcluir
  5. Entre saudade e distância a gente sobrevive... tenta. Boa sorte. E vá descansar 😉

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Sempre sobrevivemos. Ou tentamos. Ou nos acostumamos...

      Excluir

Se você realmente leu, me importa sua opinião. Fique a vontade...