Respire Calmamente

Depois da quarta ligação perdida eu atendi.
– Que foi Zé?
– Por favor, não desliga.
– Fala.



– Volta comigo Marcus? – Foi uma pergunta meio retórica. Ele quase sussurrou. – Me desculpa os erros, a falta de maturidade, a falta de juízo. Eu sei que tu me amas e também sei que só o amor não é tudo porque tu já conversaste comigo sobre e também sei que eu não sou um ser humano bom. Mas por favor, não pensa muito meu amor. Volta para mim...
– Não posso. – Engolir o nó na garganta.
– Porque cara?
– Porque? Tu me traíste Zé. Esqueceu? Tu esqueceste disso? Quem foi que eu peguei beijando outro cara no banheiro do Athenas? Foi você meu amor. Foi você que partiu meu coração primeiro. Foi você que fez eu capotar o carro e passar dois dias internado. Foi você que fez me desistir da gente.
– Me desculpe cara. – Ele começou a chorar. Ele sempre chora muito fácil. Ele fica com as bochechas vermelhas quando chora. – Por favor, eu não sei o que eu fiz, eu estava bêbado. Tu que é o meu amor verdadeiro Marcus.
– Vou desligar. – Quis encerrar esse momento dramático na minha existência.
– Não, por favor.
– Nós já conversamos, José Felipe.
– Minha vó quer falar contigo.
– Não quero falar com a tia Joana agora. Já está tarde. Deixa ela dormir. – O telefone ficou uns segundos em silêncio. – Zé?
– Oi filho, sou eu...
– Oi tia. – Meus olhos transbordaram. Também, perdi a voz. Cair no abismo.
– Não chora meu amor. – Ela notou.
– Óquei.
– Olha, o José Felipe tem me perseguido bastante desde o dia em que tu deixou ele. Já conversei, já expliquei, já fiz de tudo. Mas tu bem sabes como ele é né. Quer que eu te convença a voltar. Ele sabe que não pode me pedir isso. Ele sabe. Mas não. Ele não entende que cada um escolhe o que é melhor para si... – Ele chamou atenção dela do outro lado, ela respondeu qualquer coisa em voz baixa. Eu esperei.
– Entendo a senhora tia. Mas não. Eu não posso. Eu já conversei com ele. Já desculpei. Já perdoei. O que ele fez não tem... falar nisso, ele já te disse o motivo disso tudo?
– Já...
(Pausa de uns onze segundos em silêncio.)
– Eu amo o seu neto, tia. Você sabe disso. Mas...
– Eu sei.
– Mas eu não posso me permitir. Eu não posso me submeter a isso. Eu não posso aceitar e encarar essa situação dessa maneira. Eu já disse que podemos ser amigos. Mesmo ele fazendo o que fez, eu desculpei. Foi ele quem escolheu me machucar tia. Eu só não quero mais continuar assim.
– Entendo. Mas...
– Mas o que? – Eu a interrompi. – Por favor... eu não vou perdoar uma traição. Eu já sofri tanto nessa vida, sabe. Eu não tenho mais força para conviver com a falta de confiança. Eu confiava no José Felipe, a senhora sabe. Eu sempre dei toda liberdade que eu gostaria de ter. Eu sempre o amei da forma mais verdadeira possível. Eu sempre fui sincero. Eu me entreguei de corpo e alma para esse amor. Então...
– Então tentar perdoar meu bem. Ele se arrependeu. Vive chorando o dia todo. Tenta dá uma chance...
– Já tentei. Mas não.
– Eu te entendo.
(Pausa de mais uns dez segundos.)
– Ainda quer falar com ele?
– Não. Só dá um abraço apertado nele por mim.
– Posso dá um beijo também?
– Não faz isso comigo tia.
– Vou dizer que tu precisas de um tempo para pensar.
– Óquei.
Quer dizer que eu dei a entender que ainda existe uma possibilidade de volta. E a verdade é que eu gostaria de me permitir voltar sim, porque afinal de contas, eu queria perdoá-lo e no dia seguinte esquecer do beijo que eu vi ele dando naquele rapaz dentro do banheiro. Eu mal consigo controlar as lágrimas quando penso a respeito e eu não vou te mentir, meu coração se quebrou em infinitos pedaços naquele momento. Eu fiquei sem chão. Minha reação foi sair calmamente e esperar ele voltar. Jamais imaginaria, também, só fui atrás dele naquela hora porque tocou City And Colour e eu sabia que ele adora essa banda. Eu dancei a música inteira sozinho, fiquei mais três músicas esperando, resolvi sentar e aguardar ele chegar. O que faltava em mim? Aonde chegamos a ponto de ele beijar outras bocas perto o suficiente? Ele queria que eu visse? Eu respirei fundo. Quando ele chegou, justificou sua demora dizendo que a fila estava grande e me puxou para dançar. Eu dancei. Eu internamente, chorei. Uma música depois eu quis ir embora. Ele me chamou para dormir na casa dele, como de costume, mas eu engasguei com o nó na garganta e dei de ombros. No carro, enquanto eu dirigia em silêncio, ele perguntou o que eu tinha, eu disse que estava só um pouco tonto e enjoado. A voz dele era tranquila. Ele era a tranquilidade em pessoa. Ele não iria me falar. Se eu não tivesse visto, talvez nunca saberia. Eu pensei que ele gostava de mim, sabe. Pensei que era reciproco. Eu? Eu não reconhecia mais esse cara aqui do lado. Infiel.
– Desce do carro. - Freei.
– Quê? – Ele me olhou perplexo. – Ficou louco?
– Não. Eu só quero que você desça do carro. Por favor Zé. – Eu não me permitir olhá-lo. – Na outra esquina já é teu condomínio. Por favor, desce.
– Porque tu estás chorando Marcus?
– Porque? – Sussurrei, perdendo a voz, olhando fundo nos olhos dele. – Porque?
Ele desceu e eu pisei no acelerador. Corri pela Avenida Dos Holandeses sem saber exatamente para onde eu queria ir. Eu queria que tudo isso fosse só um pesadelo e que daqui a alguns minutos eu estaria acordando em cima da minha cama. Por favor. Minha casa ficava no sentido contrário. Pensei rápido demais, precisa dá o retorno, mas eu estava em alta velocidade. Suspirei. Mas não pisei no freio. Vi o carro girar e de repente, era a luz forte do hospital que machucava meus olhos. Tentei levantar, mas não. Tudo doida. Respirei calmamente. Tudo bem.

– Oi Zé. – Liguei para ele uma semana depois.
– Marcus.
– Já faz uma semana.
– Já. Está tudo bem?
– O que você acha?
– Que não.
– Mas vai melhorar. Sempre melhora.
– Sempre.
– Amigos?
– Jura que tu queres isso?
– Claro. Eu te amo José Felipe. Tu sabes disso. Eu tenho necessidades de saber se estás bem.
– Então volta comigo moço.
– Você não precisa ter que me trair de novo.
– Para.
– Parei.
– Só amizade também não quero.
– Então está bem.
– Não, espera.
– O que?
– Está em casa?
– Sim.
– Sozinho?
– Não. Minha mãe está aqui.
– Posso te visitar?
– Pode.
– Óquei.

O sorriso dele me esperava atrás da porta. Eu sabia. Também, sabia que seria difícil lidar. Só não poderia ser uma recaída. Não seria. E não foi. Mas acontece que o cheiro dele ainda era irresistível, como sempre. O abraço, apertado. O beijo no rosto, molhado. Ele bem aqui. Eu bem aqui. Minha mãe noutro cômodo. Suspirei. Eu tive vontade de dá o beijo-de-língua-bem-safado-de-sempre naquela boca linda. Roçar sua barba na minha. Morder seu lábio inferior. Dizer aos sussurros no ouvido dele que estava morrendo de saudades. Sem dúvidas, eu o queria de volta. Mas tudo o que eu mais queria mesmo era perder o desejo e seguir minha vida. Eu estou desistindo do meu amor, o faço, porque já não é leve. E dói. Mas eu sou forte o suficiente. O amor não é tudo. O amor nunca foi tudo. E jamais será enquanto eu tiver consciência.

2 Comentários

  1. Li com vontade. Amei com vontade. Voltarei muitas vezes aqui com mais vontade ainda. Adoro-te e teu blog ainda mais. Beijos de luz <3

    /F.L

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    1. Fico feliz que tenha gostado do blog.
      Obrigado.

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